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o Homem Certo

Parece que trabalho numa empresa de malucos

A nossa empresa é constituída por funcionários apanhados da cabeça. Há malucos para todos os gostos.

Costumamos dizer que só entra gente doida e quem não é, fica.

Às vezes pareço que trabalho no the office.

Uma das minhas personagens preferidas da minha empresa é o Boca de Trapo, baptizei-o assim porque este rapaz não pode saber nada, conta tudo, seja da vida dele ou dos outros. Fico sempre a saber de coisas tão interessantes como: o que come ao jantar, quantas fo***s deu, os seus desportos favoritos que eu odeio, e que tenho de levar com a conversa ora sim, ora sim, se fulana (que também lá trabalha) faz bem sexo oral, se cicrano B foi violado pelo avô, podia contar um role de coisas, mas não quero maçar ninguém, este rapaz conta tudo o que não tem mal contar e o que não se devia contar.

O Boca de Trapo tem outra particularidade é um mentiroso que não sabe mentir. 

Um dia disse que quando esteve a trabalhar na Holanda juntou 15 000 euros em pouco tempo. já me contou que eram 12 000, e noutra conversa que tinha gasto tudo mal gasto e não trouxe nada.

Outra vez disse que quando regressou a Portugal pagou logo o carro zás, sem espinhas, noutra conversa disse o valor da prestação, que lhe custava imenso pagar

Uma vez o avô tinha o BMW no nome do BT, noutra conversa o avô devia passar o carro para o nome dele.

Uma semana fartou-se de beber, na seguinte há uma semana que não bebe.

Eu ouço mais do que falo, porque com ele não vale a pena e ouço quando não tenho a hipótese de não ouvir.

Tem ainda outra característica é o perigo das mulheres casadas, para se afirmar, será? Para se sentir melhor que os outros mete-se sempre com senhoras comprometidas para ver se conquista, e quando consegue rejubila alegria e felicidade, até se acabar o affair e voltarem para os maridos, aí geme baixinho.

E existem mais mil e uma história deste género

Já me esquecia o Boca de Trapo a dia 15 já deve ter o orçamento curto e vá de cravar cigarros, irrita-me imenso.

E fica apresentado o Boca de Trapo..

Vamos fingir que estou naquela programa, Alta Definição, na parte do gosto disto e daquilo

Gosto:

De bolos

De chocolate

De salgados

De picanha

De telemoveis 

Dos meus amigos

De conversar

De ouvir

De ler de vez em quando

De escrever

De fazer comentários parvos

De ler textos parvos

De cantar, mas não sei

De namorar

De estar sozinho

De beber vinho tinto

De gins

De ir às compras

De gritar quando estou sozinho, só naquela de desanuviar,

Gosto de rir, de fazer rir e rir de mim próprio

De ir ao Teatro

De ver filmes e series

De desenhos animados

De bebes e crianças

De cães

De gatos

Da minha Família, apesar de serem muito chatos

Do meu namorado

De ser padrinho

De ir à missa

De não ter nada para fazer

De descansar

De acordar tarde

De me deitar tarde

De fazer poemas

De falar para mim próprio

De museus

De palácios e castelos, monumentos e afins

Da História de Portugal

De Portugal

Da família Real Do UK

Da família Real de Espanha 

Da Amália

De Fado

De comer bem

De jantares

De dançar

De conviver

De ajudar os outros

De estar triste de vez em quando

De ser feliz

De fumar

De passear ao domingo

Já disse do meu Namorado?

Da Agustina

Do Manoel de Oliveira

Dos livros do Saramago que são contra a Igreja

De ser Católico e Cristão 

De ser Gay

De ter segredos

De saber segredos dos outros

De ser criança

De ser adulto

De ter carta

De ter um blog

De ser melga

Da Rita Ferro

Do Herman

Dos poétas 

De perfumes

De ouvir musica

De fazer coisas que os outros não fazem

 

K7 dum puto

A mãe foi ao multibanco e os putos ficaram no carro. O rapazinho fez a seguinte musica em voz de choro

Eu quero a mãe

Eu quero a mãe

E alternava 

Eu quero ir com a mãe

Eu quero ir com a mãe.

Metam muitos BIS a seguir a cada verso, durante 2.58, sucesso.

E às vezes acho que além de Homem Certo sou um Homem com Sorte, se calhar não.

Quando passo no corredor está sempre um homem a olhar para mim

O meu tio-avô está doente já a algum tempo, tenho evitado (armado em egoísta e medroso, e mau sobrinho) visita-lo. Penso ele está doente, está quase sempre a dormir, deitado no seu quarto, o que é que eu vou lá fazer? Pergunto-me.

 

No outro dia, a minha tia pediu-me ajuda para o levar para o primeiro andar, vinha numa cadeira de rodas, eu e o meu pai levamos-o, como somos verdes, custou imenso leva-lo para cima, quase, quase que o deixávamos cair. Mas o meu tio não estava ali, estava noutro sitio qualquer sem reacção, falamos para ele nem respondia, acho que nem ouvia.

 

Quando o ia levar para o quarto, olhou ao espelho fez-me sinal, e disse baixinho qualquer coisa, pedi  para repetir, não gosto nada de passar aqui, aquele homem ali, (era o seu reflexo no espelho), está sempre a olhar para mim, à espera que morra para ir dormir com a tua mãe. E calou-se num silencio profundo, como se o seu eu tivesse desaparecido.

 

Quando o levei para o quarto:

- Filho? Já foste apanhar lenha?

- Lenha?

- Sim, está frio, para por na lareira.

- Já fui está ali no cesto.

- Estás diferente João! Já não te ris da mesma maneira, nem brincas comigo.

- Sou o HC tio...

- Ah está bem... Ficou a pensar e continuou - Olha o que é que tu és a mim?

- Seu sobrinho

- Ahhhhh e eu sou o que a ti?

- É meu tio.

- E só posso ser teu tio? Não posso ser tua tia? 

Fiquei a pensar e disse: É o Tio

- Ah tio é pouco, não é? E não posso ser tio e tia? Ou primo?

Fiquei calado

- Podes ir chamar a minha mãe? - a mãe já morreu à trinta anos, no mínimo, fiquei a pensar. E a minha tia respondeu por mim, já vem. - Ah ela deve estar zangada comigo.

- Porquê?

- Porque eu não a tenho ido visitar. Silencio. Olha João já foste buscar a lenha? Então vai agora que esta senhora enfermeira vai me despir para eu ir para cama, mas não digas nada à tua mãe que ela pode ficar com ciúmes.

Ele confundiu-me com o filho, e com mais alguém, às vezes não conhece ninguém, outras nem se reconhece ao espelho. Há minutos que está lúcido. Foi lhe diagnosticado Alzheimer. É uma doença triste.

O impressionante é que no outro dia contou a minha mãe que tinha estado lá a visita-lo e que tínhamos falado um bocadinho, e naquele momento tenho a certeza que não me viu.