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o Homem Certo

Quando passo no corredor está sempre um homem a olhar para mim

O meu tio-avô está doente já a algum tempo, tenho evitado (armado em egoísta e medroso, e mau sobrinho) visita-lo. Penso ele está doente, está quase sempre a dormir, deitado no seu quarto, o que é que eu vou lá fazer? Pergunto-me.

 

No outro dia, a minha tia pediu-me ajuda para o levar para o primeiro andar, vinha numa cadeira de rodas, eu e o meu pai levamos-o, como somos verdes, custou imenso leva-lo para cima, quase, quase que o deixávamos cair. Mas o meu tio não estava ali, estava noutro sitio qualquer sem reacção, falamos para ele nem respondia, acho que nem ouvia.

 

Quando o ia levar para o quarto, olhou ao espelho fez-me sinal, e disse baixinho qualquer coisa, pedi  para repetir, não gosto nada de passar aqui, aquele homem ali, (era o seu reflexo no espelho), está sempre a olhar para mim, à espera que morra para ir dormir com a tua mãe. E calou-se num silencio profundo, como se o seu eu tivesse desaparecido.

 

Quando o levei para o quarto:

- Filho? Já foste apanhar lenha?

- Lenha?

- Sim, está frio, para por na lareira.

- Já fui está ali no cesto.

- Estás diferente João! Já não te ris da mesma maneira, nem brincas comigo.

- Sou o HC tio...

- Ah está bem... Ficou a pensar e continuou - Olha o que é que tu és a mim?

- Seu sobrinho

- Ahhhhh e eu sou o que a ti?

- É meu tio.

- E só posso ser teu tio? Não posso ser tua tia? 

Fiquei a pensar e disse: É o Tio

- Ah tio é pouco, não é? E não posso ser tio e tia? Ou primo?

Fiquei calado

- Podes ir chamar a minha mãe? - a mãe já morreu à trinta anos, no mínimo, fiquei a pensar. E a minha tia respondeu por mim, já vem. - Ah ela deve estar zangada comigo.

- Porquê?

- Porque eu não a tenho ido visitar. Silencio. Olha João já foste buscar a lenha? Então vai agora que esta senhora enfermeira vai me despir para eu ir para cama, mas não digas nada à tua mãe que ela pode ficar com ciúmes.

Ele confundiu-me com o filho, e com mais alguém, às vezes não conhece ninguém, outras nem se reconhece ao espelho. Há minutos que está lúcido. Foi lhe diagnosticado Alzheimer. É uma doença triste.

O impressionante é que no outro dia contou a minha mãe que tinha estado lá a visita-lo e que tínhamos falado um bocadinho, e naquele momento tenho a certeza que não me viu.

 

 

 

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