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o Homem Certo

No dia que o Zé morreu

Naquele dia bebi café depois de jantar, como de costume com malta amiga, cheguei a casa por volta da meia noite.

A minha avó fazia 82 anos e não me lembro se lhe desejei feliz aniversário.

Os meus pais já dormiam. 

Era meia noite quando a prima Luísa ligou. Quando se liga a esta hora, boa coisa não é.

Foi uma coversa estranha no começo. A prima é daquelas sonsas que fala sempre de maneira querida e miudinha.

Então Miguel estás bom?

Sim.

A mãe? Como é que ela está?

Está bem.

E eu posso falar com ela?

Já está a dormir.

Hum 

(Até aqui não desconfiei de nada.)

E o pai?

Também já está deitado.

(Mau, esta está apanhadinha).

Então mas não posso falar com eles?

Ja estão deitados.

E a mãe está calma?

Mau, está, está tudo bem... Mas passa-se alguma coisa?

Então o pai não te disse nada?

Sobre o que?

(...)

E tivemos nisto um tempo eu a perguntar ela a não querer responder.

O meu pai soube da noticia, como a minha mãe estava doente e não convinha enervar-se o meu pai guardou a noticia para si e decidiu que só contaria no dia seguinte.

Até que a minha mãe se levantou e achou aquela conversa parva, passei-lhe o telefone, até que a minha mãe percebeu algo estranho e pediu à Luísa que para contar o que setinha passado.

Imagino que a Luísinha ainda hoje se arrepende de ter ligado.

Ai não posso. Um silencio. A minha começou num pranto e eu sem perceber nada. Até que percebi entre os soluços que o Zé tinha morrido.

Nunca tinha visto a minha mãe descontrolar-se daquela forma. Um choro que parecia que tinham rasgado a carne, ou arrancado um pedaço de si, ou ... nem sei. Um choro de dor, que vinha do fundo. 

Abracei-a e deixei-a a chorar, pedindo calma, mas naquela hora não havia calma. A minha mãe chorou mais duma hora sem controlo.

E eu sem saber o que fazer.

O Zé tinha morrido, num acidente de moto, no dia de aniversário da avó, enquanto a minha avó apagava as velas do bolo o meu segundo primo mais velho deixava este mundo. Imagino o choque da minha avó quando recebeu a noticia, já no final do jantar que a tia mais velha organizara em sua casa.

Parece telenovela mas foi assim.

Nunca perguntei como foi, apesar de já me ter contado, não me lembro da história.

Sei que liguei para a minha irmã, que estava sozinha com os putos, e ainda tive de ir ter com ela para lhe limpar as lágrimas.

Gostávamos muito do Zé, era muito bem disposto, sempre a contar piadas, a contar histórias inventadas como se fossem verdadeiras e a rir. É a imagem que tenho dele.

Ele viveu em nossa casa um ou dois anos.

A minha mãe adorava-o. 

E partiu cedo. Muito cedo e deixou uma menina chamada Amélia para perpetuar a sua memória.

 

Lembro-me como se fosse hoje.

Já de madrugada enquanto recordávamos histórias dele, de repente levantou-se um vento que fazia as peças no quintal andarem dum lado para outro, assim como começou... acabou. Olhei para a minha mãe, e nada dissemos. 

O Zé tinha acabado de passar por ali para dizer adeus.

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